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1.Introdução
A equipa espanhola de 4x 100 metros há muitos anos que vem lutando para ocupar um lugar entre as melhores equipas da Europa. Contudo, a participação desta equipa em competições internacionais tem sido bastante irregular, apesar de já ter contado com magníficas selecções. Tanto a lendária equipa de Munique (1972), como a Montreal (1976) foi desclassificada. Doze anos depois, em Seoul (1988), a história voltaria a repetir-se e o testemunho a não chegar à meta.
A equipa parecia estar amaldiçoada e cada vez se confiava menos nas possibilidades da estafeta de 4x 100 metros de Espanha. Apenas a esperança dos velocistas e o trabalho de técnicos como Carlos Gil, Manuel Pascua e António Postigo, fizeram manter viva a ideia de colocar a Espanha entre as melhores equipas da Europa.
Desde o Europeu de Split em 1990 em que foi batido o recorde de Espanha e se conseguiu o quinto lugar, que a equipa espanhola tem conseguido quebrar barreiras e subido lugares no panorama internacional. Contudo em Barcelona (1992), quando todos pensávamos que a equipa podia chegar à final, tivemos que nos contentar apenas com o 11º lugar. Apesar das boas entregas nas meias finais, o primeiro percurso (Arqués) não ouviu bem o tiro de partida e partiu com algum atraso, pelo que não foi possível melhorar o tempo das eliminatórias, mas pelo menos o testemunho chegou à meta e a partir daí esta tem sido a tónica dos últimos anos, incluindo os Jogos de Atlanta. Mas as coisas começaram a mudar desde 1996 e conseguiu-se pela primeira vez quebrar a barreira dos 39 segundos (38.85 em Madrid), exactamente com a mesma equipa que conseguiu correr em 38.60 nos Mundiais de Atenas e obter a sétima posição.
Quadro 1
Trajectória da equipa nacional nas grandes competições internacionais:
1972 – 40.69 – Munique JO Desclassificados
1976 – 39.55 – Montreal JO Desclassificados
1987 – 39.74 – Roma CM 39.74 (11º)
1988 – 39.20 - Seoul JO Desclassificados
1990 – 39.10 – Split CE 30.10 (6º)
1991 – 39.52 – Tóquio CM 39.52 (11º)
1992 – 39.44 – Barcelona JO 39.60 (11º)
1993 – 39.17 – Estugarda CM 39.17 (12º)
1994 – 39.78 – Helsínquia CE 40.01 (13º)
1995 – 39.12 – Gotemburgo CM 39.16 (13º)
1996 – 38.85 – Atlanta JO 38.91 (10º)
1997 – 38.60 – Atenas CM 38.60 (7º)
Quadro 2
Competições durante o ano de 1997:
18/6 38.85 Bari 2º (Feo, Murcia, Mayoral, Navarro)
21/6 39.44 Munique 7º (Feo, Murcia, Mayoral, Navarro)
05/7 39.51 Alcalá 1º (Feo, Berlanga, Garcia, Mayoral)
09/8 38.87 Atenas 5º (Feo, Murcia, Mayoral, Navarro)
09/8 38.60 Atenas 3º (Feo, Murcia, Mayoral, Berlanga)
09/8 38.72 Atenas 7º (Feo, Murcia, Mayoral, Berlanga)
2. Análise dos 4x 100 metros
A prova deestafetas de 4x 100 metros tem por objectivo levar o testemunho em velocidade máxima desde a partida até à meta. Este facto que parece óbvio, não pode ser levado a cabo pelas equipas que se esquecem da importância das transmissões. Dos 400 metros que o testemunho percorre, 90 metros correspondem a zonas de transmissão (3x 20m de zona mais 10m de balanço), e quando a diferença a nível individual dos corredores que compõem a estafeta não é significativo, são as transmissões que vão determinar o resultado final.
Vilkov (1992) afirma que nos metros 15 e 16 da zona de transmissão a velocidade dos corredores é a seguinte:
- Corredor portador: 10.00 a 10.20 metros/segundo
- Corredor receptor: 9.80 a 10.00 metros/segundo
Isto quer dizer que o atleta portador deve transmitir o testemunho a uma velocidade entre 0.20 a 0.40 metros/segundo superior à velocidade do atleta receptor, para que a transmissão seja optimizada. Diferenças de velocidade superiores no momento da transmissão provocam travagens bruscas e podem comprometer a entrega do testemunho.
Maisetti (1995) nas suas observações do histórico quarteto francês (que bateu o recorde do Mundo dos 4x 100 metros), concluiu que a diferença de velocidade média do portador, medida entre a marca de referência e a linha do início da zona de balanço, e a velocidade média do receptor, medida nos últimos dez metros da zona de balanço, é de 1m/seg. nas transmissões de curva para recta (1ª e 3ª transmissões), e de 1.50m/seg. nas transmissões de recta para curva (2ª e 4ª transmissões). Estas diferenças acontecem porque com grandes velocistas é impossível ao atleta receptor, nos 29 metros que tem para acelerar atingir a velocidade do atleta portador na zona de transmissão.
A diferença que existe entre os dois autores, deve-se possivelmente ao facto do estudo de Maisetti ter sido realizado com atletas que eram capazes de atingir velocidades muito elevadas, enquanto o estudo dos russos foi feito com atletas de menor rendimento.
No caso da equipa espanhola as diferenças não são tão notadas, visto que o nível individual é um pouco inferior, e onde mais se nota a diferença do nível individual dos atletas é nos metros finais de uma prova de 100 metros, pois na fase de aceleração essas diferenças não são tão significativas. Em equipas com um potencial idêntico ao da equipa espanhola, se o atleta receptor acelera ao máximo no espaço que dispõe, abandona a zona de transmissão a uma velocidade superior aos 10m/seg. e no momento da transmissão a diferença de velocidades entre os corredores não deve ser superior aos 0.40 a 0.70 m/seg.
Quadro 3 - Comparação de velocidades médias entre dois atletas (Super Liga de 1997)
Atleta Marca Vel. Média (10-30m) Vel. Média (60-100m)
Lindford Christie 10.04 10.15m/seg 11.36m/seg
Frutos Feo 10.38 9.90m/seg 10.86m/seg
Diferença de marca 0.34 0.20m/seg 0.50m/seg
Diferença em % 96.68% 97.5% 95.6%
Este quadro mostra a diferença de comportamento ao longo de uma prova de 100m entre um atleta de nível mundial e um atleta de nível nacional. Este exemplo mostra que as diferenças entre as equipas com grandes talentos individuais e as equipas intermédias não são tão significativas na zona de transmissão e que utilizando uma técnica correcta e sem erros, a velocidade média na zona de transmissão pode ser superior às melhores equipas.
3. Análise das Transmissões
Para que as transmissões se realizem nas melhores condições, no momento da entrega do testemunho as diferenças de velocidade entre o atleta portador e o receptor, devem ser de 0.20 a 0.40 metros/segundo. Esta diferença pode ser conseguida de três formas diferentes:
3.1. Através de uma diminuição da velocidade do atleta portador
Isto acontece quando o atleta portador alcança demasiado cedo o atleta receptor. Quanto mais próximo isto acontece da zona de início da transmissão, maior será a travagem e a consequente perda de velocidade de testemunho. Este é o caso que acontece com maior frequência e faz com que a velocidade média do testemunho na zona de transmissão seja baixa. As principais causas são as seguintes:
- Distância insuficiente a que foi colocada a marca de referência.
- Reacção lenta do atleta receptor à passagem do portador na marca de referência.
- Aceleração insuficiente do atleta receptor.
- Atleta portador de alto nível de rendimento e a terminar muito forte.
- Condições exteriores favoráveis ao atleta portador e que não foram controladas pelo receptor (vento a favor, altitude, pista exterior na primeira transmissão, etc.).
3.2. Através de uma diminuição da velocidade do atleta receptor
Isto acontece quando o atleta receptor ao estar quase a chegar ao limite da zona de transmissão se apercebe que não vai conseguir receber o testemunho dentro dessa zona.
Neste caso, a velocidade média do testemunho será boa ao nível da prestação do atleta portador, contudo a velocidade com que o testemunho vai sair da zona de transmissão será baixa. As principais causas são as seguintes:
- Distância excessiva a que foi colocada a marca de referência.
- O atleta receptor reage antes do portador alcançar a marca de referência.
- Técnica de transmissão defeituosa (entrega incorrecta, tempo excessivo entre a “voz de comando” e a entrega, má técnica de corrida com a mão em posição de receber).
- Quebra excessiva da velocidade do atleta portador nos últimos metros da corrida.
- Condições exteriores desfavoráveis ao atleta portador e que não foram controladas pelo receptor (vento contra, chuva, frio, curva muito apertada, pistas interiores na primeira transmissão, etc.).
3.3. Através de uma aceleração óptima do atleta receptor
Isto acontece quando o atleta receptor consegue atingir uma velocidade de 0.20 a 0.40 metros/segundo inferior à do portador no ponto de transmissão. Neste caso, a velocidade média do testemunho na zona de transmissão e na saída da zona será a velocidade óptima.
Contudo, as equipas constituídas por atletas de alto nível, não dispõem de espaço suficiente para alcançar a velocidade necessária. As principais causas são as seguintes:
- Bom ajustamento da distância da marca de referência.
- Reacção precisa ao sinal de referência.
- Boa aceleração do atleta receptor.
- Boa técnica de entrega (rápida e precisa).
- Distância máxima possível entre os atletas no momento da entrega.
- Condições exteriores bem controladas pelo atleta receptor.
Conseguir que uma equipa consiga realizar as três transmissões da estafeta da forma mais correcta é uma tarefa extremamente difícil e o principal objectivo do treino das estafetas.
Como resumo podemos realçar os seguintes pontos:
- Através do treino da técnica de transmissão estamos fundamentalmente a incidir sobre a velocidade de saída do testemunho da zona de transmissão.
- Através do treino da colocação do atleta receptor, reacção à passagem do portador na marca de referência, aceleração e ajuste da distância a que vai ser colocada a marca de referência, estamos fundamentalmente a incidir sobre a velocidade média do testemunho na zona de transmissão.
- A segurança e estabilidade das transmissões conseguem-se através da repetição sistemática destes dois tipos de treino.
(continua...)
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