|
 |
Treinar crianças e jovens no atletismo ou em qualquer outra modalidade, implica uma enorme responsabilidade por parte do Treinador, porque além de exercer a sua influência no desenvolvimento dos aspectos técnicos, físicos, tácticos e psicológicos específicos de cada modalidade, tem também uma influência decisiva na formação e na educação dos jovens, nos seus objectivos, nos seus sonhos e nos seus sentimentos.
O Treinador nunca se pode esquecer que do seu papel é decisivo junto das crianças e dos jovens que orienta e das repercussões que a sua acção irá ter no seu futuro.
Decisivo no que respeita à evolução técnica dos jovens, que lhes irá permitir dominar as técnicas específicas da modalidade que escolheram, podendo assim alcançarem muitos dos seus objectivos e expressarem todo o seu talento.
Para isso, é necessário que o jovem adquira desde muito cedo toda uma gama rica e variada de habilidades técnicas, através de uma prática multidisciplinar da actividade desportiva.
Decisivo no que respeita ao desenvolvimento das suas capacidades físicas (coordenação, velocidade, flexibilidade, força e resistência), de uma forma global e harmoniosa ao longo de todo o crescimento.
O treino deve contribuir positivamente para o crescimento dos jovens, respeitando as idades óptimas para o desenvolvimento de cada capacidade física, não ultrapassando as várias etapas da sua formação e nunca provocando uma especialização precoce.
Decisivo no que respeita à melhoria das capacidades psicológicas dos jovens atletas, que também devem ser treinadas e desenvolvidas, de acordo com as características de cada idade, de forma a preparar esses jovens para responderem da melhor maneira às exigências do treino e da competição.
Decisiva no que respeita à formação da personalidade dos jovens, do seu carácter, da sua forma de estar na vida.
O Treinador nunca se pode esquecer que antes de tudo o mais é um educador e tem grandes responsabilidades nessa área, pois o desporto e a actividade física representam muito para os jovens, e o seu Treinador é muitas vezes um modelo a seguir.
Perante esta enorme responsabilidade o Treinador tem de estar muito bem preparado. Para isso, conta com a sua experiência como antigo praticante desportivo, com a sua experiência de vida, com a sua intuição, o seu bom senso, a sua dedicação, a sua disponibilidade, o seu carácter, o gosto pela modalidade, o gosto pelo ensino e pelo treino, e todas as qualidades da sua personalidade.
Mas é pouco, pois perante a responsabilidade de formar um jovem em áreas tão complexas e tão diversificadas, é necessário conhecimento. Conhecimento que se adquire com a experiência, mas também com estudo e principalmente com uma formação específica.
Qualquer um de nós quando está doente exige ser tratado por um médico que tenha formação específica. Quando pomos os nossos filhos na escola, exigimos que os seus professores tenham uma formação específica. Então temos de dar aos outros aquilo que exigimos para nós próprios e para os nossos filhos, um profissional competente e com os conhecimentos necessários para desempenhar a sua tarefa com eficácia e qualidade.
Os “sete pecados” do Treinador
O atletismo português viveu durante muitos anos (e ainda vive um pouco) muito à custa dos chamados treinadores “carolas”.
O “carola” é o treinador que normalmente não tem qualquer tipo de formação e que trabalha num clube de bairro ou num clube de província que apenas se dedica ao atletismo de estrada. Nesse clube costuma desempenhar mais do que uma tarefa, treinador, dirigente, seccionista, massagista, patrocinador, etc., etc., e tem outra profissão que nada tem a ver com o atletismo ao qual dedica quase todo o seu tempo livre assim como ao clube e aos seus atletas, sem que disso retire qualquer benefício financeiro. Consegue criar um excelente relacionamento com os jovens que orienta, motivando-os para a prática do atletismo, e por vezes consegue mesmo fabricar um potencial campeão.
O atletismo português deve muito a estes “carolas” que são responsáveis por uma grande parte do êxito do nosso meio-fundo e fundo.
Contudo, também se têm cometido muitos erros, derivados fundamentalmente da falta de uma formação específica para o cargo de treinador. Esses erros estão na origem da perda de muitos talentos, sendo possível identificar os sete erros mais frequentes.
1 – O Treinador encara o treino não como um processo a longo prazo em que o objectivo fundamental é a formação técnica, física, psicológica, e da própria personalidade dos seus jovens atletas, mas sim como um processo a curto prazo em que o seu único objectivo é a promoção pessoal e a sua afirmação como treinador através dos resultados imediatos dos seus atletas, mesmo que isso implique a possibilidade dos jovens prejudicarem a sua evolução futura.
2 – O Treinador dirige o treino de todos os seus atletas unicamente para as provas de corta-mato e de estrada, independentemente da idade dos jovens ou da sua vocação.
Fá-lo normalmente por falta de conhecimentos nas outras disciplinas do atletismo, mas com isso vai perder muitos atletas que estariam mais vocacionados para os saltos, a velocidade ou os lançamentos.
Vai também prejudicar o futuro daqueles que estão mais vocacionados para as provas de meio-fundo e fundo, pois nunca lhes deu a oportunidade de praticarem outras disciplinas, permitindo-lhes alargar o seu leque de experiências motoras, melhorar as outras capacidades físicas e torná-los assim atletas mais aptos.
3 – Todos os treinos têm como objectivo desenvolver a resistência, pois é a capacidade física que está directamente relacionada com o êxito a curto prazo nas provas de corta-mato e estrada, e também é a capacidade que é mais fácil de treinar e dominar por parte do Treinador.
Com isso, está-se a impedir os jovens de aproveitar as idades óptimas para o desenvolvimento das outras capacidades, a limitá-los em termos físicos e a desperdiçar as etapas de formação que são essenciais para adquirir as componentes técnicas básicas para todas as disciplinas, incluindo a corrida.
4 – Quando se treina a resistência com jovens atletas, cometem-se por vezes alguns erros. Em primeiro lugar raramente se utilizam formas jogadas para o treino desta capacidade física, mesmo quando se trata de crianças em que a componente lúdica deve fazer sempre parte do treino.
Em termos de volume do treino (principalmente no que respeita à corrida contínua) também se cometem exageros em idades muito baixas, esquecendo-se os Treinadores que devem deixar sempre uma margem de progressão para o treino dos seus atletas.
Por vezes começa-se a entrar cedo demais no trabalho específico (treinos intervalados, treinos fraccionados e treinos de ritmo), a solicitarem o desenvolvimento da resistência anaeróbica láctica, sem que haja um trabalho de base ao nível da resistência aeróbia.
5 – A competição deve aparecer no processo de treino dos jovens como um elemento fundamental para a sua motivação, e como um momento de avaliação do trabalho realizado. Para isso deve ser encarada principalmente como uma festa, um convívio, um espaço de alegria e de prazer.
Muitas vezes a atitude do Treinador perante a competição é extremamente negativa, pois encara a vitória como o principal objectivo, coloca nos jovens demasiada pressão, penaliza o insucesso, e no fundo desperdiça uma excelente oportunidade para consolidar o gosto pelo desporto, tornando-a num motivo de “stress” e de frustração perante o inêxito, que muitas vezes pode levar ao abandono.
6 – O principal objectivo do Treinador é desenvolver nos seus atletas o gosto pelo desporto, e assegurar a continuidade dos jovens até ao escalão de seniores. Contudo, verificamos que muitos Treinadores só treinam jovens do escalão de infantis, iniciados e alguns juvenis, não conseguindo ter no seu grupo atletas juniores e seniores, pois esses já desistiram.
É um bom teste para qualquer Treinador olhar para o seu próprio grupo de atletas, ver há quanto tempo é treinador e quais são os seus atletas juniores e seniores. Se não os houver, é porque alguma coisa está a correr mal e não consegue criar nos seus atletas o gosto pelo desporto que os leve a manterem-se na actividade desportiva.
7 – Como em todas as actividades na vida, há pessoas melhor e pior preparadas para determinadas tarefas. No atletismo também é assim, e logicamente há treinadores mais e menos habilitados para conseguirem obter sucesso com o treino de determinado atleta.
Um dos principais erros dos treinadores é não quererem reconhecer esta realidade e por vezes prejudicarem toda a carreira de um atleta. A relação atleta-treinador é muito forte e é difícil a um atleta (que tem uma grande admiração e reconhecimento pelo seu técnico), reconhecer que é a altura de procurar alguém mais habilitado para o treinar. Esse papel cabe ou deveria caber ao treinador, mas nem sempre assim acontece, muitas vezes com prejuízos graves para os seus atletas e para as suas carreiras.
|