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Artigo técnico
O treino da força rápida nos saltos

Artigo do treinador espanhol Juan Carlos Alvarez Ortiz (Técnico Nacional de Saltos Horizontais da RFEA).

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1. Princípios Gerais

O conjunto de conhecimentos que cada treinador possui, deve essencialmente servir para que possa tomar decisões rápidas e sobretudo lógicas, em tudo o que diz respeito ao processo de treino. Assim, deve seguir os seguintes princípios:

1.1. Avaliar e caracterizar previamente as características fisiológicas, mecânicas e neuromusculares de cada atleta, para poder planear individualmente o seu treino.

1.2. Determinar o ritmo progressivo dos exercícios especiais e especiais-auxiliares na programação multianual, com a finalidade de criar uma escada de dificuldade crescente, evitando assim, queimar etapas.

1.3. O treino da força rápida para os saltos é essencialmente um treino de coordenação e uma adaptação neurológica.

1.4. Na maior parte dos exercícios é necessário adoptar o princípio da “correspondência dinâmica” de Verjoshanski para o gesto desportivo. A ordem que se deve respeitar é a seguinte: - Regime de trabalho muscular (predomínio)
- Unilateralidade e reciprocidade dos movimentos.
- Sentido do movimento.
- Amplitude do movimento.
- Aumento do esforço nos momentos críticos.
- Magnitude da força.
- Velocidade do desenvolvimento da força.

1.5. Evitar o treino com máquinas de musculação, pois impedem o trabalho dos músculos sinergistas, assim como a próprioceptividade. Também não se devem realizar tipos de contracção muscular que não sejam idênticas às do movimento competitivo.

1.6. Controlar com frequência dos treinos de potência muscular e de velocidade máxima é a única garantia de melhorias, pois o “feed-back” externo permite fugir da monotonia.

1.7. Adequar o volume e a intensidade. O volume deve ser sempre o suficiente e o controlo da intensidade é imprescindível. Deve sempre iniciar-se o processo de treino com trabalhos de volumes altos e de intensidades baixas para assim permitir adaptações no tecido conjuntivo e nas cartilagens articulares.

1.8. Evitar o treino sistemático dos exercícios de controlo, excepto se são completamente específicos.

1.9. Dar ao treino da técnica a importância que ele merece, mas sem esquecer que a técnica se melhora em todos os exercícios que estão bem adequados a determinada disciplina.

1.10. Descansar o suficiente, pois este tipo de treino provoca uma sobrecarga neuromuscular e é fundamental realizar uma boa parte deste treino em situações em que o sistema nervoso esteja descansado.

2. Diagnóstico das capacidades de força do saltador

Este problema já foi tentado resolver por diversas vias, tanto através de testes de terreno como através de testes de laboratório. O primeiro aspecto a ter em conta é definir o que nos interessa medir. Por exemplo, quando avaliamos um salto em comprimento consideramos que se encontra na zona de predomínio da força um atleta que salta mais do que o esperado para a sua velocidade de corrida. Saltadores como Emmian ou Pedroso conseguiram saltos superiores a 8,50 metros com velocidades de 10,30m/seg.. Isto só é possível devido a uma grande capacidade de gerar um grande impulso vertical com velocidades verticais de saída superiores a 3,8m/seg. São atletas fortes, ou melhor ainda, potentes, contudo nenhum dos dois consegue ultrapassar os 17,50 metros no pentasalto (com saída a pés juntos). Este exemplo serve para entendermos que é fundamental definir exactamente o que queremos avaliar nos nossos atletas.

Diversos autores propuseram sistemas de obtenção da curva força-velocidade, mas o grande problema destes métodos com plataformas de contacto é a falta de fiabilidade.

Por exemplo, quando um grupo de 15 dos melhores saltadores espanhóis realizou um teste de salto sem contramovimento (Squat Jump) controlado pela plataforma de forças, observou-se que só dois (os dois com maior capacidade de força) eram capazes de executar o teste utilizando a técnica correcta, e mesmo estes dois, não o conseguiam em todas as tentativas.

Há outros métodos mais sofisticados, como o registo da curva de força-tempo numa contracção máxima isométrica (BUHRLE, 1985). Nessa curva podemos observar a capacidade de exercer força em momentos diferentes. Pode-se também obter o “déficit de força” entre a contracção máxima isométrica e o máximo alcançado de forma excêntrica. Entende-se que este déficit é fruto da incapacidade de mobilização voluntária. Principalmente nos atletas de maior nível e à medida que se vai aproximando o período competitivo esse valor diminui.

Se esse déficit for pequeno, o incremento da força dependerá principalmente de alterações estruturais e se for grande, de alterações neurológicas.

Entre os exercícios de terreno, são de grande utilidade aqueles que se compõem de ciclos de estiramento-encurtamento num número muito elevado. È preferível que sejam exercícios feitos só com uma perna e que exista a possibilidade de fazer o contraste entre duas velocidades de execução. Poer exemplo, os triplos ou os pentasaltos só com uma perna (a pé coxinho) com uma corrida de balanço curta são exercícios muito utilizados por quase todos os saltadores. Os saltos pliométricos a partir de uma plataforma (saltos em profundidade) com as duas pernas ou só com uma perna também podem dar-nos informações sobre o nível da força especial. Outro tipo de exercícios não nos proporcionam as informações mais adequadas. Os testes de reactividade com plataforma de forças são úteis para acompanhar a evolução de determinado atleta, mas não são comparáveis entre atletas, pois variam muito conforme a técnica de execução de cada atleta..

3 – Conceito de “Força Especial” e tipos de exercícios

Kuznetov definiu os exercícios de força especial como aqueles que permitem trabalhar a força dos músculos que suportam a carga principal conservando a estrutura do exercício competitivo.

Os exercícios de força especial são a base do treino de força rápida aplicados aos saltos atléticos. Podem diferenciar-se três tipos de exercícios: o exercício competitivo, os exercícios especiais e os exercícios especiais auxiliares.

Os exercícios especiais são aqueles que fomentam o desenvolvimento da força, unida a outra capacidade física, conservando a estrutura interna e externa do movimento. Esta conservação entende-se dentro de um grau de variabilidade que não provoque modificações significativas.

Os exercícios especiais-auxiliares desenvolvem a força mediante exercícios locais que mantêm a estrutura interna do movimento e a intensidade dos pontos fundamentais.

Ambos os tipos de exercícios estão relacionados com o princípio da "correspondência dinâmica". Ao permanecer constante a amplitude e os grupos musculares que intervêm, torna-se muito importante o nível de força, principalmente quando a sobrecarga é muito ligeira.

3.1. – Limites da Especificidade de um Exercício

A preparação especial da força dá a possibilidade de desenvolver a força juntamente com outra capacidade motora fundamental e específica, métodos de influência sintética e analítica. Os exercícios em condições iguais, facilitadas ou dificultadas no que diz respeito ao exercício competitivo são o meio mais utilizado. Em termos gerais, os exercícios dificultados acentuam a componente da força e da coordenação intra-muscular, enquanto que os exercícios mais facilitados aumentam a componente da velocidade de participação muscular e consequentemente a coordenação inter-muscular e a técnica.

A melhor forma de determinar as características de um exercício é através da realização de uma análise cinemática e dinâmica integrada com electromiografia. Numerosos estudos nesta área permitiram-nos conhecer as semelhanças entre os exercícios especiais e o exercício competitivo. Além disso, para um determinado atleta permitem optimizar a selecção de determinado tipo de exercícios, assim como a carga a utilizar e mesmo, o número de repetições a realizar. Como exemplo podemos observar um gráfico da força de um exercício especial – saltos a pés juntos sobre barreiras – realizado em diversas condições por H. Drechsler (Gráfico 1).

Tracções negativas superiores a 12% da velocidade na descida ou positivas que aumentem em mais de 5%, também determinam alterações técnicas. Nos saltos são aceites sobrecargas inferiores a 5% do peso corporal e modificações no momento da chamada de 7% a 8% da estatura do saltador na subida e de 5% na descida.

3.2. – Organização dos exercícios especiais de força

A integração de dois métodos no mesmo treino é denominado “método de influência variável”. Nas disciplinas de saltos é difícil de realizar devido a limitações materiais, contudo deve-se tentar resolver esse problema, pois como já dissemos anteriormente, as condições facilitadas dão um grande impulso à técnica. Ao longo do microciclo deve haver um programação adequada para que estes exercícios se realizem em condições de repouso do atleta e de acordo com o trabalho técnico, quando se realizam na mesma sessão de treino. Devem-se programar séries de 3 a 5 repetições quando se trabalha com uma intensidade de 90%, que é a intensidade mais apropriada para estes exercícios quando se quer atingir um volume máximo. Na organização anual e no macro e mesociclo há duas tendências, por vezes pouco diferenciadas: uma forma concentrada com disposição consecutiva dos meios (conjugada) e um sistema mais distribuído com um desenvolvimento e complexo. Ambos os sistemas estão a ser utilizados com êxito com os melhores especialistas mundiais.


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