1. Introdução
No nosso país, é habitual observar os atletas das mais variadas disciplinas,
utilizarem um aquecimento para os treinos e para as competições, muito parecido
com o que utilizam os corredores de meio-fundo. Esse aquecimento começa
invariavelmente por corrida contínua, seguindo-se uma sessão de flexibilidade e
alongamentos, normalmente aproveitada para colocar as conversas em dia, passando
para segundo plano o aquecimento propriamente dito, o que em dias mais frios
pode ser bastante prejudicial para o treino que se vai seguir. Após a corrida e
o trabalho de mobilidade geral, que costuma ocupar a maior parte do aquecimento,
seguem-se alguns exercícios de técnica de corrida, normalmente escolhidos pelo
próprio atleta e sem a presença do treinador.
Como o principal objectivo de um aquecimento é preparar o atleta para o treino
que vai realizar, e como as várias disciplinas do atletismo solicitam estímulos
de diferentes intensidades e têm tipos de treinos completamente diferentes entre
si, não tem qualquer lógica que o aquecimento dos atletas dessas diferentes
disciplinas seja exactamente igual.
Assim, para as disciplinas de velocidade e barreiras, propomos um “Aquecimento
Dinâmico”, que visa preparar os atletas para um treino com características
dinâmicas e que solicite de forma eficaz o sistema neuro-muscular.
É contudo importante realçar o facto do “Aquecimento Dinâmico” ser apenas um
dos vários modelos de aquecimento possíveis. Assim, cada treinador deve escolher
o tipo de aquecimento que mais se adapta ao treino que vai realizar, assim como
ao período da época em que se encontra, não esquecendo também o princípio da
individualização do treino, adaptando o aquecimento às capacidades de cada
atleta.
2.
Objectivos do “Aquecimento Dinâmico”
2.1.
Melhorar a Treinabilidade
Mesmo com
atletas de velocidade e barreiras, é importante desenvolver a resistência
aeróbia, como base para todo o processo de treino. Assim, o aquecimento deve
constituir um estímulo aeróbio específico, que sirva também para desenvolver a
“treinabilidade” dos atletas, daí a importância do ritmo imposto ao aquecimento,
que não deve ter grandes paragens, o que se consegue através de uma alternância
entre percursos em corrida ou executando diversos tipos de exercícios técnicos,
com exercitação activa no lugar.
2.2.
Preparação Física Geral
Ao longo de toda
a época, mas principalmente durante o Período Preparatório, o aquecimento é uma
altura privelígeada para introduzir os mais diversos exercícios de Preparação
Física Geral, fundamentais para o reforço muscular e a mobilidade dos atletas.
2.3.
Estimulação Neuro-Muscular
Este aquecimento
deve constituir um estímulo para o sistema neuro-muscular, através de exercícios
específicos para o tipo de treino a realizar.
2.4.
Intencionalidade Técnica
A
intencionalidade técnica deve estar sempre presente, quer na correcção da
atitude postural e dos apoios durante a corrida, quer na especificidade dos
exercícios e na sua correcta execução.
2.5.
Respeitar o “Príncipio da Progressão”
Os aquecimentos
devem respeitar o príncipio da progressão a três diferentes níveis:
- dentro
do próprio aquecimento, em que se deve progredir do mais geral para o mais
específico;
- durante
as várias fases da época, através de uma diminuição do volume do aquecimento e
de um aumento da sua intensidade;
- ao
longo da carreira atlética através de uma adaptação das dificuldades do
aquecimento às características de cada escalão etário.
3. Organização
do “Aquecimento Dinâmico”
3.1.
Organização Geral
- O treinador
deve marcar na pista um percurso com uma distância entre 20 a 60 metros,
delimitado por marcações colocadas nos topos.
- O
atleta irá percorrer esse percurso, de uma forma contínua, com de um ritmo de
execução vivo, sem contudo o levar a apresentar demasiados sinais de fadiga.
- Normalmente
esse percurso é feito em corrida, ou executando exercícios de características
variadas, servindo os topos para o atleta realizar os exercícios de P.F.G., de
mobilidade articular, de flexibilidade, ou mesmo alguns exercícios técnicos que
não exijam deslocação.
- A
duração do “Aquecimento Dinâmico” deve estar relacionada com os objectivos do
treino, com o período da época em que se realiza, com o escalão etário do
atleta, com o seu estado de forma e também com as condições atmosféricas. Apesar
destas variantes, é possível definir uma duração para o aquecimento, entre os 20
e os 60 minutos.
3.2.
Organização dos percursos de corrida
- A
intensidade, assim como a especificidade dos exercícios que se realizam nos
percursos de corrida, vai aumentando progressivamente ao longo do aquecimento,
devendo começar por uma intensidade muito baixa.
- Deve
haver sempre uma intencionalidade técnica ao longo de todo o aquecimento,
principalmente a partir do momento em que se começam a colocar os exercícios
mais específicos.
3.3.
Organização dos exercícios
- Deve-se
respeitar a progressão na intensidade de execução e no tipo de exercícios,
deixando os exercícios mais dinâmicos ou aqueles que exigem uma maior
flexibilidade para o final do aquecimento.
- Deve-se
respeitar uma certa alternância entre os vários tipos de exercícios. Em primeiro
lugar entre exercícios com uma incidência global e outros com uma incidência
mais localizada. Por outro lado no que diz respeito à solicitação dos vários
grupos musculares. Por fim, alternar também exercícios de P.F.G., de mobilidade
articular e de flexibilidade e alongamentos.
4.
Exemplo
de um “Aquecimento Dinâmico”
PERCURSO:
Recta de 50 metros na pista (marcar com pinos os topos da recta).
DURAÇÃO: 36 minutos.
PERÍODO: Preparatório Específico.
DISCIPLINA: Velocidade, Barreiras e Saltos.
TREINADOR: Orienta o aquecimento e corrige todos os aspectos técnicos.
EXERCÍCIOS: 1º - 2’ de marcha à volta do percurso.
2º - 2’ de corrida saltada à volta do percurso.
3º - 2’ de saltitares variados à volta do percurso.
4º - 1’ de exercícios de mobilidade geral (tronco e
braços).
5º - 50m em saltitares laterais (para a direita).
6º - 1’ de exercícios de mobilidade geral (bacia e
pernas).
7º - 50m em saltitares laterais (para a esquerda).
8º - 1’ de exercícios de mobilidade geral (pernas e
pés).
9º - 50m em skipping baixo.
10º - 1’ de exercícios para fortalecimento dos
abdominais lombares.
11º - 50m em skipping baixo (15m rápidos + 20m relax.
+ 15m rápidos).
12º - 1’ de exercícios para fortalecimento dos
glúteos.
13º - 50m em calcanhar atrás.
14º - 3’ de exercícios de alongamentos.
15º - 50m em calcanhar atrás (15m rápidos + 20m relax
+ 15m rápidos).
16º - 1’ de exercícios específicos para a entrada da
bacia.
17º - 50m em skipping alto.
18º - 1’ de exercícios para fortalecimento dos
anteriores e dos gémeos.
19º - 50m em skipping alto (15m rápidos + 20m relax +
15m rápidos).
20º - 3’ de exercícios de alongamentos.
21º - 50m em corrida de costas.
22º - 1’ de exercícios para fortalecimento dos
abdominais lombares.
23º - 50m em corrida de costas.
24º - 1’ de exercícios para fortalecimento dos
glúteos.
25º - 50m em multisaltos curtos.
26º - 3’ de exercícios de alongamentos.
27º - 50m em multisaltos rápidos.
28º - 1’ de exercícios específicos para a entrada da
bacia.
29º - 50m em multisaltos .
30º - 1’ de exercícios para fortalecimento dos
anteriores e dos gémeos.
31º - 50m em corrida progressiva.
32º - 3’ de exercícios de alongamentos.